DR. JULIÃO ZUZARTE - 1ª testemunha; simulação de julgamento

  Simulação de julgamento 
Dr. Julião Tomás Zuzarte


ator Fernando Gusmão, que representou a personagem de Dr. Julião no filme "O Primo Basílio", adaptação cinematográfica da obra de Eça de Queiroz, 1959

• António Cortez, 140120069 • Guilherme Almeida, 140120182

Resumo do questionário feito pelo advogado do autor e respostas da testemunha:

Advogado: «Diga-me muito sucintamente, como foi o seu percurso académico.»
Julião Zuzarte: «Terminei a minha Licenciatura em Antropologia, na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, em 2001. Interessei-me logo pela parte mais cientifica e não tanto cultural, por isso fiz o Mestrado na antropologia forense na Universidade de Coimbra, também. Finalmente, fiz o meu doutoramento em Ciências Forenses.»

A: «E atualmente, o que faz?»
JZ: «Dou aulas de uma cadeira no mestrado em Antropologia Forense de Coimbra, sou diretor do programa de Mestrados e acompanho alguns doutoramentos.»

A: «E fora do mundo académico, tem alguma atividade profissional?»
JZ: «Tenho uma equipa com a qual desenvolvo muitos trabalhos de peritagem, para os tribunais, como o relatório que fiz neste caso.»

A: «Com um percurso académico e profissional tão sólido, como é que pode justificar o erro que cometeu no julgamento que os advogados do réu, tão pertinentemente chamaram a atenção na sua contestação? Certamente reconhecerá que é uma negligência muito grave, quase amadora, ter deixado material de investigação no local do corpo, que comprometeu seriamente o resultado do estudo?»
JZ: «Em primeiro lugar, tenho de o assumir. Eu lidero uma equipa de especialistas e quando as coisas correm bem, por assim dizer, também "colho os louros". Da mesma forma, quando correm mal, tenho de assumir total responsabilidade, como é óbvio.
No entanto, vejo o erro como um passo necessário para o sucesso. Na minha carreira,  creio ter dado muitas provas que deviam mostrar que esse erro não me define. Desde então, já fiz vários outros trabalhos do mesmo género e nunca se repetiu nada do género.
Espero que o único erro deste género que cometi não ponha em causa toda a seriedade da minha longa carreira e deixe-me dizer que considero um pouco "primata" que se pegue  num erro totalmente natural para tentar descredibilizar alguém assim.»
 
A: «Os advogados do réu defenderam que os restos mortais são “quase nulos”. O que é que o seu exame conclui?»
JZ: «De facto a minha equipa realizou um série de exames, que permitiu concluir, logicamente, que o corpo se encontra degradado, mas na medida daquilo que é normal num cadáver com mais de 120 anos. Se falarmos em "quantidade", é verdade que restam poucos restos mortais, como seria de esperar.»

A: «Os advogados do réu também apresentaram um relatório de um suposto perito, que defendeu que os vestígios encontrados são “pouco significativos”, argumentando que por isso um eventual processo de transladação não terá um impacto significativo na decomposição dos restos mortais?»
JZ: «Como já disse, obviamente, não há um corpo. No entanto, analisando de um ponto de vista  genético, o que concluímos é que dado o tempo que passou, é surpreendente a preservação do material genético que resta. Nesse sentido os restos mortais são muito significativos.
Mas como seria de esperar, a matéria existente é frágil e pode facilmente ser comprometida, portanto a movimentação acarretaria muitos risco para a preservação.»

A: «Sem entrar em explicações demasiado técnicas, que a maioria de nós aqui presentes não entenderia, pode explicar-nos como procedeu à sua avaliação?»
JZ: «Muito bem. Quando é possível, neste género de processos, examinamos os restos mortais em laboratório, porque isso permite fazer uma série de análises mais detalhadas ao nível de doenças, identificação de ancestralidade, hábitos alimentares (dentes), etc.
Neste caso concreto, o objeto do estudo foi apenas e só perceber em que estado estariam os restos mortais - especialmente o que resta dos ossos, uma vez que os tecidos moles já se decompuseram, como é natural.
Após uma avalição preliminar, concluímos rapidamente que nem sequer seria aconselhável movimentar os restos mortais para o laboratório, mas devido ao avanço tecnológico, e ao mediatismo do caso, recebemos apoios significativos que me permitem assegurar que as análises são cem por cento confiáveis.»

A: «Muito obrigado. Só para terminar, uma pergunta de sim ou não: com vista à preservação dos restos mortais que analisou, aconselharia a sua transladação do Douro para o Panteão em Lisboa?»
JZ: «Seguramente que não.»

* * *

Alegações finais sobre a testemunha:

«Muito obrigado Meritíssimas Juízas.

Após o inquérito que aqui foi feito, perante todos os presentes, ao Senhor Doutor Julião Zuzarte - especialista em antropologia forense, como é demonstrado pelo seu vasto currículo - creio que ficou claro que o erro que os advogados do réu invocaram para descredibilizar a nossa testemunha não deve ser tido em conta.

Foi um erro natural, num tempo atípico, do género daqueles que só não foram cometidos por quem não investiu tempo suficiente numa carreira extensa, como a do Dr. Julião Zuzarte. Por isso, é totalmente infundada esta tentativa desprezível de descredibilizar um profissional tão competente.

Neste sentido, acreditamos ter demonstrado que não deve, este painel de Excelentíssimas Meritíssimas Juízas, ignorar o parecer deste especialista, ainda para mais se o fizerem em favor do "parecer" de uma pessoa com um mero mestrado na área de "Antropologia em geral" como aqui foi referido.

O parecer do Dr. Julião demonstrou cientificamente que a preservação dos poucos restos mortais que ainda existem depende totalmente da sua manutenção no local em que estão, em Tormes

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